
O protagonismo feminino no cinema e na música vive uma transição profunda, onde as mulheres deixaram de ser musas para se tornarem autoras de suas narrativas. No cinema, diretoras e produtoras impõem o "olhar feminino", substituindo estereótipos por histórias complexas. Na música, artistas assumiram o papel de executivas, dominando a composição, a gestão financeira e a posse de suas obras. Embora o impacto cultural seja inegável, persistem barreiras como a disparidade salarial e o baixo acesso de mulheres negras e trans a grandes orçamentos. O cenário atual não é apenas sobre ocupar palcos, mas sobre deter o poder de decisão, onde a mulher deixa de ser objeto para se tornar a mente soberana por trás de cada frame e nota.
Abaixo vemos algumas obras dirigidas e protagonizadas por mulheres no mundo todo.
A Substância: Dirigido por Coralie Fargeat, é um terror corporal visceral que critica duramente os padrões estéticos impossíveis impostos às mulheres pela indústria do entretenimento.
Hamnet: Dirigido por Chloé Zhao, o filme reconta a vida de William Shakespeare sob a perspectiva de sua esposa, Agnes, focando na dor da perda e na força feminina da época.
Anora: Vencedor da Palma de Ouro, o filme foca na agência e dignidade de uma trabalhadora sexual, desafiando a vitimização comum nesses papéis.
Ainda Estou Aqui: Dirigido por Walter Salles, mas protagonizado por uma atuação histórica de Fernanda Torres, foca na resiliência de Eunice Paiva durante a ditadura brasileira.
Adoráveis Mulheres: Dirigido por Greta Gerwig, que redefine a clássica história sobre ambição e sororidade.
Retrato de uma Jovem em Chamas: Dirigido por Céline Sciamma, é uma obra-prima sobre o desejo e a arte sob uma perspectiva puramente feminina.
Bom Dia, Verônica: A personagem de Tainá Müller faz sua jornada como uma das maiores figuras de investigação do audiovisual brasileiro. A série foca na luta contra sistemas de abuso patriarcal, colocando a mulher como a agente que expõe as rachaduras do poder masculino.
Antigamente, para ter sucesso em gêneros dominados por homens, a mulher precisava adotar uma postura invulnerável para se encaixar no que o público masculino esperava. Ao cantar sobre suas fraquezas, a vulnerabilidade deixa de ser "fraqueza" e vira uma forma de dizer que nossa dor é real e comum a todas. No Brasil, o Sertanejo Feminino, era liderado por Marília Mendonça, que revolucionou o mercado ao trazer o ponto de vista da mulher para o centro. Marília trouxe um empoderamento cotidiano onde a mulher é a narradora: ela bebe no bar para esquecer, expõe a traição e decide terminar, tirando a mulher comum do papel de coadjuvante e tornando ela a protagonista de suas escolhas amorosas e financeiras.
Diferente da performance, onde a visibilidade feminina é alta, a produção musical e a engenharia de som ainda apresentam estatísticas desproporcionais. Um dos maiores desafios atuais é a presença feminina nessas áreas técnicas, onde os números são baixos, mas nomes como Rosalía, que produz suas próprias faixas, inspiram uma nova geração. Quando uma mulher ocupa a engenharia de som, ela garante que a intenção artística original não seja diluída. Além disso, por ser uma das áreas mais rentáveis em direitos autorais, a ausência feminina na produção contribui diretamente para a desigualdade financeira.
Abaixo vemos algumas obras de autonomia artística produzidas por mulheres no mundo todo.
Rihanna: Anti, o álbum que rompeu com a fábrica de hits. Rihanna se recusou a entregar o que a gravadora queria, criando uma obra densa e autoral que provou que ela era a mente criativa por trás de sua marca global.
Lady Gaga: Mayhem, o álbum marcado como seu trabalho mais cru e experimental, onde ela assume as rédeas da produção sem filtros pop comerciais.
Ariana Grande: Eternal Sunshine, um álbum de divórcio e autoconhecimento onde a artista assume a produção executiva para narrar sua versão dos fatos, fugindo das fofocas de tabloides através de um som sofisticado e vulnerável.
Chappell Roan: The Rise and Fall of a Midwest Princess, um álbum que marca da autonomia queer no pop. Ela construiu seu império de forma independente e teatral, transformando a performance feminina em um espaço de liberdade absoluta e celebração comunitária.
Marina Sena: Coisas Naturais, um álbum que no Brasil, Marina consolida sua maturidade artística com uma sonoridade orgânica e vulnerável, reafirmando-se como uma força independente.
Liniker: Nas plataformas de áudio e em seus especiais de vídeo, Liniker representa o auge da composição como manifesto. Ela controla desde a sonoridade (misturando MPB, Jazz e R&B) até a forma como seu corpo e afeto são retratados, fugindo de qualquer estereótipo pré-moldado pela indústria.

O protagonismo feminino no cinema e na música não é uma tendência passageira, mas uma reforma definitiva nas estruturas de poder da cultura global e brasileira. Vivemos a transição de um cenário onde a mulher era apenas imagem ou voz para um presente onde ela é a arquiteta da obra. Seja pela quebra do olhar masculino na direção ou pela gestão de impérios bilionários na música, a autonomia tornou-se a palavra de ordem. Embora o caminho para a equidade ainda enfrente desafios como a disparidade salarial, a ferramenta mais poderosa é a autoria. Quando a mulher têm a caneta, o roteiro e o orçamento, ela não apenas conta sua história, mas altera a percepção do que é possível para todas as que virão depois.
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